Manuel Bandeira criou sua utopia mais famosa, onde era amigo
do rei, onde tinha qualquer mulher que quisesse. A Pasárgada. E se ele criou
esse paraíso imaginativo, é porque aqui na Terra ele não encontrou algo que se assemelhasse ao local descrito.
Estive pensando sobre minha própria Pasárgada. Talvez lá eu encontre
o que procuro, e saiba exatamente o que estou procurando. Talvez lá eu entenda
a nossa mente por completo, mas isso é algo tão complicado que me contento em
saber só um pouquinho mais dela. Gostaria de ter doses extras e eternas de
carinho e atenção, desvencilhando apertos no peito. Aliás, acho que desejo não
ter coração, porque ele pesa. Só a alma já basta pra mim. Gostaria que a
população que vivesse na minha Pasárgada vivesse, e não apenas existisse. E os
sentimentos, gostaria que eles fossem sentidos com toda a intensidade. Lá não
haveria preconceitos, julgamentos ou ferimentos. Desejo que lá as pessoas se
apaixonem à primeira vista, e que a troca de bens seja feita por abraços e não
por cédulas ou moedas. Lá eu saberia fazer o que quisesse, sem limitações ou
olhares provocativos. Eu seria um astro de rock e um rapper e um pintor e
também escritor de sucesso. Lá a minha mente não seria tão preocupada com o que
os outros pensam de mim, e eu seria feliz com meu corpo e com meus olhos e com
meu nariz: Os fantasmas só existiriam na Casa dos Horrores do Parque de
Diversões, e não nas nossas cabeças.
Mas aí paro de
divagar. Estou aqui, na minha casa, no mundo real. Tão delicioso e tão
destrutivo. Eu gosto do meu mundo real, e acredito que as verdadeiras
Pasárgadas estão em pequenos momentos, gestos e intensidades que vivemos – veja
bem, vivemos, e não divagamos –. Elas podem durar uma tarde, uma
noite, uma semana, uma hora ou até cinco minutos, mas foram paraísos enquanto existiram.
Tenho um álbum de
figurinhas com todas as Pasárgadas que já desbravei. Cada figurinha é um viver
diferente e felizmente meu álbum está cheio deles. A diferença desse meu álbum para os demais que encontramos
nas bancas de jornal é que ele não possui uma página final, porque a nossa alma
não morre. Ele é completo a cada figurinha nova, e mais bonito a cada conquista
alcançada.
Espero que Manuel Bandeira também tenha feito um
álbum com todas as suas Pasárgadas reais, seus momentos especiais.
"And the weight of the world is lost
And the blues in the blue we cross
Everything gone is gone
Good man with capable hands
Sails for new lands
And he understands that you can't go back
You can't look back
Sail, set, sail!"





