sábado, 26 de outubro de 2013

Pasárgada

Manuel Bandeira criou sua utopia mais famosa, onde era amigo do rei, onde tinha qualquer mulher que quisesse. A Pasárgada. E se ele criou esse paraíso imaginativo, é porque aqui na Terra ele não encontrou algo que se assemelhasse ao local descrito.

Estive pensando sobre minha própria Pasárgada. Talvez lá eu encontre o que procuro, e saiba exatamente o que estou procurando. Talvez lá eu entenda a nossa mente por completo, mas isso é algo tão complicado que me contento em saber só um pouquinho mais dela. Gostaria de ter doses extras e eternas de carinho e atenção, desvencilhando apertos no peito. Aliás, acho que desejo não ter coração, porque ele pesa. Só a alma já basta pra mim. Gostaria que a população que vivesse na minha Pasárgada vivesse, e não apenas existisse. E os sentimentos, gostaria que eles fossem sentidos com toda a intensidade. Lá não haveria preconceitos, julgamentos ou ferimentos. Desejo que lá as pessoas se apaixonem à primeira vista, e que a troca de bens seja feita por abraços e não por cédulas ou moedas. Lá eu saberia fazer o que quisesse, sem limitações ou olhares provocativos. Eu seria um astro de rock e um rapper e um pintor e também escritor de sucesso. Lá a minha mente não seria tão preocupada com o que os outros pensam de mim, e eu seria feliz com meu corpo e com meus olhos e com meu nariz: Os fantasmas só existiriam na Casa dos Horrores do Parque de Diversões, e não nas nossas cabeças.


Mas aí paro de divagar. Estou aqui, na minha casa, no mundo real. Tão delicioso e tão destrutivo. Eu gosto do meu mundo real, e acredito que as verdadeiras Pasárgadas estão em pequenos momentos, gestos e intensidades que vivemos – veja bem, vivemos, e não divagamos –.  Elas podem durar uma tarde, uma noite, uma semana, uma hora ou até cinco minutos, mas foram paraísos enquanto existiram.

Tenho um álbum de figurinhas com todas as Pasárgadas que já desbravei. Cada figurinha é um viver diferente e felizmente meu álbum está cheio deles. A diferença desse meu álbum para os demais que encontramos nas bancas de jornal é que ele não possui uma página final, porque a nossa alma não morre. Ele é completo a cada figurinha nova, e mais bonito a cada conquista alcançada.

Espero que Manuel Bandeira também tenha feito um álbum com todas as suas Pasárgadas reais, seus momentos especiais. 

"And the weight of the world is lost
And the blues in the blue we cross
Everything gone is gone

Good man with capable hands
Sails for new lands
And he understands that you can't go back
You can't look back

Sail, set, sail!"

Nenhum comentário:

Postar um comentário